Música na Cabeça

Pesquisas recentes revelam que a música tem mais a ver com biologia do que com nossa inspiração e escolhas estéticas
Por Rodrigo Cavalcante
"Qual é a música?"
O auditório lotado onde foi realizado, em abril do ano passado, o Encontro Anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Washington, parecia o velho programa do Silvio Santos em que os cantores Ronnie Von e Ovelha disputavam prêmios aos domingos. A platéia lá também fez silêncio para ouvir e tentar identificar as quatro notas que o professor Luis Baptista, da Academia de Ciências da Califórnia, iria tocar. Depois de alguns segundos de suspense, todos ouviram o famoso “tchan-tchan-tchan-tchaaan” que abre solenemente a Quinta Sinfonia de Beethoven. Uma das mais conhecidas seqüências musicais da história – já desgastada pelo uso corrente em contextos tão diversos quanto propagandas de lâmina de barbear e desenhos animados. Depois dos risos da platéia com a fácil identificação da música veio a surpresa: naquele caso, o autor da seqüência de notas não foi Beethoven. E sim um pequeno pássaro mexicano.
Há pouco tempo, ninguém teria dúvidas de que tudo não passaria de uma coincidência – é muito improvável que Beethoven tenha ouvido alguma vez na vida o trinado de um passarinho nascido em Cancún. Mas as pesquisas no ramo da biomusicologia – estudo da base biológica para a criação e a apreciação da música – sugerem que há algo mais do que o simples acaso entre o compositor alemão e o pássaro mexicano: os dois possuiriam organismos com uma predisposição para ordenar o som em alguns ritmos e freqüências semelhantes. “Ambos são animais programados para a música”, diz a pesquisadora Patricia M. Gray, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Patricia é co-autora de um artigo científico publicado no mês passado na revista americana Science. O estudo mostra que, pelo menos quando se trata de gosto e de competência musical, alguns animais poderiam dividir o palco com nossos melhores compositores.
Por esse prisma, a música não é uma dádiva da inteligência humana, um fenômeno artístico e cultural com, no máximo, 52 000 anos (data provável dos mais antigos instrumentos musicais encontrados recentemente na Eslovênia – flautas feitas de ossos perfurados). Se depender dos biomusicólogos, a história da música pode retroceder até pelo menos 60 milhões de anos, quando as primeiras baleias apareceram nos oceanos. “Não é exagero dizer que esses mamíferos também criam o que chamamos de música”, diz Patricia.
Numa época em que música é um conceito tão amplo que pode englobar desde sinfonias dodecafônicas até pagodes de fundo de quintal, ninguém tem dúvida de que defini-la com precisão é tarefa das mais difíceis. “Mesmo assim, há uma diferença entre um som aleatório e o que chamamos de música”, diz José Miguel Wisnik, pianista, compositor e professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo. Autor do livro O Som e o Sentido, relançado no ano passado pela Companhia das Letras, Wisnik explica que enquanto o som é o resultado físico da vibração dos corpos se propagando no ar, a música é o entrelaçamento intencional dessas ondas sonoras em determinados intervalos, produzindo ritmo, harmonia. Essa é a diferença entre o barulho de um copo se estilhaçando e o trecho de uma sonata de Brahms. Mesmo quando os músicos de vanguarda incluem ruídos em seus trabalhos, desafiando os canônes musicais, há sempre uma estrutura intencional que une esses sons na busca de um sentido, uma espécie de ordem da qual nem o mais sujo conjunto punk escapa.
Foi essa ordem que surpreendeu os pesquisadores quando escutaram os sons emitidos pelas baleias no fundo dos oceanos. Algumas delas produziam seqüências musicais claras que demonstravam intencionalidade. Primeiro, à guisa de abertura, o tema inicial. Em seguida, fica mais elaborado. Depois, ele se transforma em outro. Por fim, a cantata retorna ao tema inicial. (Alguém aí pensou na estrutura de uma sinfonia? Corretíssimo.) E, então, o mais inesperado: a música das baleias corcundas também tem refrão e rima, artifícios sonoros que facilitam a memorização de certos trechos musicais. (É por isso que você não consegue tirar o refrão daquela música melosa da cabeça.)
As pesquisas com as baleias e com outros animais têm levado os cientistas a acreditar que a inclinação humana para a música pode ter mais a ver com uma programação biológica do que com os padrões culturais exclusivos da nossa espécie. Como a música é um fenômeno encontrado em todas as comunidades ou grupos humanos, os cientistas já desconfiavam de que deveria existir uma base biológica para a sua criação e apreciação – mesmo antes de descobrir que não somos os únicos seres abençoados com esse dom. A diferença agora é que eles estão cada vez mais convencidos de que essa espécie de software embutido em nosso cérebro é bem mais detalhado em seus comandos. É esse software que define, por exemplo, por que ao ouvir a trilha sonora do compositor John Williams para o filme Tubarão, as pessoas sentem instintivamente que algo terrível vai acontecer em seguida – mesmo quando assistem ao filme pela primeira vez. A música avisa que Jason, o assassino da série Sexta-Feira 13, está para chegar. E dá o tom nostálgico e romântico de Em Algum Lugar no Passado. Experimente assistir a esses filmes sem suas trilhas sonoras e veja no que eles se transformam...
Muito antes de sonhar em entrar numa sala de cinema, bebês de seis à nove meses de idade já reagem de maneira diferente quando ouvem diferentes tipos de música. Em seu laboratório na Universidade de Toronto, a psicóloga Sandra Trehub comprovou aquilo que a maioria dos pais já desconfiava – bebês tendem a permanecer mais calmos quando ouvem uma melodia serena. E, dependendo da aceleração do ritmo da canção, ficam mais alertas. Há algum tempo sabe-se que a mudança na freqüência de ritmo de uma música pode estimular certos comportamentos e ajudar na recuperação de doentes . O que está por trás disso é o ritmo do próprio corpo humano. “O pulso sangüíneo, movimentos dos músculos, o andar e a respiração funcionam como uma espécie de base para o tempo musical”, diz José Miguel Wisnik. Ele diz que os homens tendem a usar o tempo desses movimentos na composição de músicas. Não é à toa que as peças musicais usam a terminologia do andar e da sua velocidade: andante é o caminhar normal; o largo é o andar em passos lentos; allegro e vivace correspondem àquela hora em que você está quase engatando uma corrida. Mesmo na música pop, o caminhar é um padrão recorrente: é só ouvir a batida de Staying Alive, dos Bee Gees, embalando os passos de John Travolta para perceber como a música entra em sincronia com o andar do ator americano. Além dos ritmos musculares, há também os ritmos cerebrais. O mais famoso deles é o ritmo alfa, que opera em torno de 8 a 13 pulsos por segundo, uma freqüência que corresponde ao estado intermediário entre a vigília e o sono. “É uma espécie de base para afinação dos ritmos humanos”, diz Wisnik. “Quando árvores em série na beira da estrada, por exemplo, entram nessa freqüência em sincronia com a velocidade do carro, criam uma interferência que pode causar torpor e levar a um acidente.”
Além da influência do ritmo, a mesma pesquisa da Universidade de Toronto sugere que os bebês nascem com preferências musicais definidas. Eles sorriem quando escutam certos grupos de notas musicais, como as quartas e quintas perfeitas (seqüências de notas como o Dó e o Fá e como o Dó e o Sol). Em compensação, odeiam os acordes dissonantes como o trítono, formado pelo toque simultâneo de um Dó e um Fá sustenido, por exemplo – um som tão instável que, na Idade Média, era conhecido como “a música do demônio”. Mas ainda não se sabe onde está, no cérebro, a origem desse julgamento que vem “instalado de fábrica”. Apesar do hemisfério direito do cérebro ter sido considerado inicialmente como o “hemisfério musical”, pesquisadores como o americano Mark Jude Tramo, do Departamento de Neurobiologia da Escola de Medicina de Harvard, defendem que nossa percepção musical é fruto da interseção dos neurônios de ambos os hemisférios. “Não existe um centro musical no cérebro”, diz Tramo. “As mesmas regiões responsáveis por outras formas de cognição são também usadas para a percepção da música.”
Talvez seja por isso que a habilidade para a música é considerada por muitos pedagogos – entre eles o norte-americano Howard Gardner, autor do livro Inteligências Múltiplas – como uma forma de inteligência tão importante para nós quanto a habilidade lógico-matemática ou lingüística. E essa inteligência auxiliaria, inclusive, outros tipos de raciocínio. Há alguns anos, por exemplo, os cientistas debatem o chamado “Efeito Mozart”. Trata-se de uma prova de que crianças ficam mais “espertas” para cálculos depois de escutar a Sonata para Dois Pianos em Ré Maior, do compositor austríaco.
O poder da música para a concentração e para a manipulação das emoções humanas não está apenas despertando o interesse dos músicos e dos estudiosos da música. “Psicólogos, produtores de filme e, claro, políticos, também estão se interessando por esses novos campos”, diz Tramo.
Existem até pesquisas que identificam o gênero musical mais eficiente para que o cliente não desligue o telefone enquanto ouve a infernal mensagem de espera: “A sua ligação é muito importante para nós...” Na Universidade de Cincinnati, Estados Unidos, um estudo concluiu que a maioria das pessoas prefere ouvir jazz e música clássica ao esperar o atendimento – esses gêneros fariam com que eles sentissem o tempo passar mais rápido. Já o rock foi um desastre para preservar os clientes. Curiosamente, ele parecia aumentar o tempo esperado, minando a paciência de quem aguardava na linha. Nesse mesmo filão, o pesquisador Donald Fucci, da Universidade de Ohio, sugeriu que os mais velhos não se sentem atraídos pelo rock por uma questão fisiológica – e não por um conflito de gerações. Fucci explica que a perda da audição com o passar dos anos é acompanhada de uma percepção distorcida de alguns sons: entre eles, o do contra-baixo e o da bateria, base do rock.
Após receber mais atenção e verbas para suas pesquisas nos últimos anos, a biomusicologia vem revelando o que boa parte das pessoas já desconfiava: somos todos seres musicais. E a biologia é mais responsável por isso do que imaginávamos. O músico John Cage já tinha antecipado essas descobertas depois de realizar uma das mais simples e importantes experiências com os sons. Isolado de todo ruído externo, Cage comprovou que escutamos, no mínimo, o grave da nossa pulsação e o agudo do nosso sistema nervoso. Até a vida, livre de ruídos externos, tem o seu ritmo e a sua própria música.

Para saber mais
Na livraria:
O Som e O Sentido – Uma Outra História das Músicas
José Miguel Wisnik, Companhia das Letras, São Paulo, 1999

Inteligências Múltiplas
Howard Gardner, Artmed, São Paulo, 1995

As "14 mais" do hospital

Música alivia a dor do pós-operatório, faz bem a pacientes com danos cerebrais e ajuda o bebê a nascer mais rápido
Depois da Segunda Guerra Mundial, hospitais americanos obtiveram resultados surpreendentes ao contratar músicos para ajudar na recuperação dos veteranos de guerra. “Foi assim que a musicoterapia ganhou força”, diz Cléo Correia, vice-presidente da Associação de Profissionais e Estudantes de Musicoterapia de São Paulo. Desde então, a terapia através da música e do uso de sons ganhou status acadêmico. Hoje, no Brasil, existem mais de cinco cursos de graduação sobre o tema. “Os médicos estão mais conscientes da importância da música em diversos tratamentos”, diz Cléo. “Até para diminuir a percepção de dor dos pacientes que estão na UTI depois de uma cirurgia.”
Na Universidade Federal Paulista de Medicina, o neurologista Mauro Muszkat pesquisou as alterações elétricas no cérebro de pacientes ao escutarem música. “Um paciente que sofreu algum dano cerebral pode recuperar algumas dessas funções se for estimulado com a música”, diz Muszkat. Os musicoterapeutas trabalham com um roteiro específico de músicas e sons de ambientes que estimulam a resposta de cada paciente. Em alguns hospitais, a música serve até como trilha sonora do trabalho de parto. “Uso a música para estimular as contrações uterinas”, diz José Bento de Souza, obstetra do hospital paulista Albert Einstein. Em sua sala de parto, os bebês nascem ao som de Mozart e Beethoven, como numa grande abertura de ópera.
Foto: Wikimedia Commons / Charles & Clint / Flickr / Creative Commons 2.0 / Reprodução: Joseph Karl Stieler / Domínio Público



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